
Após a megaoperação policial que resultou na morte de ao menos 121 pessoas, incluindo quatro policiais, o comandante da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), coronel Marcelo de Menezes, defendeu publicamente a condução da ação, batizada de Operação Contenção. Segundo ele, o confronto ocorreu “em área de mata” e foi provocado pela decisão dos próprios criminosos em resistir.
“A opção pelo enfrentamento foi dos marginais”, declarou o comandante, em entrevista ao portal Metrópoles nesta quinta-feira (30).
As declarações vêm em meio à intensa repercussão nacional e internacional da operação, considerada a mais letal da história do estado. A ofensiva, que envolveu forças estaduais e federais, ocorreu nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte da capital fluminense. O saldo oficial, até o momento, é de 121 mortos, dos quais 117 seriam suspeitos segundo a polícia, além de 113 pessoas presas.
Questionado sobre os critérios adotados para sustentar a alegação de que todas as vítimas tinham ligação com o tráfico, o comandante devolveu a pergunta:
“Algum trabalhador, num momento de confronto em uma comunidade em que nós adentramos às quatro horas da manhã, estaria em área de mata? Essa é a reflexão que fica”, respondeu Menezes.
De acordo com o coronel, a operação foi cuidadosamente planejada para evitar confrontos diretos em zonas densamente povoadas. A estratégia, segundo ele, visava preservar a integridade de moradores e concentrar o confronto em áreas isoladas, como encostas e vegetações nos limites das comunidades.
“Houve esse planejamento para tirar do cenário da população, tirar do meio dessa concentração urbanística de várias casas e edificações. Há, inclusive, imagens que demonstram o deslocamento desses marginais para áreas de mata”, justificou.
Apesar da justificativa apresentada pelo comando da PM, a operação está sob forte escrutínio de autoridades, órgãos de direitos humanos e partidos de oposição. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, convocou o governador Cláudio Castro (PL) e a cúpula da segurança pública do estado para prestarem esclarecimentos em audiência marcada para a próxima semana.
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados encaminhou pedido à Procuradoria-Geral da República (PGR) solicitando a prisão preventiva do governador, sob a acusação de violação aos direitos humanos e uso desproporcional da força.
Paralelamente, o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, anunciou a criação de um Escritório Emergencial de Combate ao Crime Organizado, que reunirá representantes dos governos estadual e federal, em um esforço para coordenar ações e investigações no pós-operação. O efetivo da Força Nacional de Segurança Pública e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) também será ampliado no estado.
Enquanto o governo estadual sustenta que todos os mortos eram integrantes do Comando Vermelho e estavam fortemente armados, entidades da sociedade civil, como o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), denunciam possíveis execuções sumárias, alegando que há relatos de vítimas atingidas por facadas e tiros pelas costas, o que reforçaria a hipótese de abusos graves durante a operação.
O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Rio também apuram os fatos. Entre os pontos em análise estão: proporcionalidade do uso da força, justificativa para as mortes, respeito ao protocolo de operações e o uso de câmeras corporais.
O governador Cláudio Castro classificou a ação como “um sucesso” e disse que foi um “duro golpe” contra o crime organizado. Em diversas entrevistas, ele criticou o que considera uma tentativa de politização da segurança pública, ao mesmo tempo em que cobra mais apoio do governo federal e nega qualquer irregularidade na condução da ofensiva.
“De vítimas, ontem, só tivemos os policiais”, afirmou Castro.
A Operação Contenção reacendeu o debate sobre o papel das forças de segurança, os limites do uso da força e a responsabilidade dos governos na condução da política de segurança pública. Com o número de mortos em patamar alarmante, a pressão por investigações e responsabilização tende a crescer nos próximos dias, com desdobramentos no Judiciário, no Congresso e no debate público.
