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Após reeleição de Lula, Ibovespa perde quase R$ 1 trilhão em uma semana

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma das maiores ondas de desvalorização do mercado financeiro brasileiro desde o Plano Real. O Ibovespa acumulou queda de 18,12% na semana, o pior desempenho desde março de 2020, enquanto o dólar e os juros futuros subiram com força.
Ibovespa reeleição Lula - Painel de cotações da B3 com queda do Ibovespa

Ibovespa reeleição Lula: A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma das maiores ondas de desvalorização do mercado financeiro brasileiro desde a implantação do Plano Real. Em apenas cinco pregões, a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) perdeu quase R$ 1 trilhão em valor de mercado, o dólar disparou mais de 9% e os juros futuros registraram forte elevação. Para o mercado, o movimento reflete a desconfiança dos investidores em relação à política econômica do próximo mandato petista.

Ibovespa reeleição Lula: A pior semana da Bolsa desde a pandemia

O Ibovespa encerrou a sexta-feira, 30, aos 167.921,80 pontos, acumulando queda de 18,12% na semana. Foi o pior desempenho semanal desde março de 2020, quando os mercados mundiais entraram em colapso no início da pandemia de Covid-19. Segundo levantamento da consultoria Elos Ayta, o valor de mercado das companhias negociadas na B3 passou de cerca de R$ 5,684 trilhões em 23 de outubro para R$ 4,721 trilhões em 30 de outubro, uma destruição de aproximadamente R$ 963 bilhões em uma semana.

Para dimensionar o tamanho do prejuízo, o montante supera o valor de mercado da Petrobras, estimado em cerca de R$ 734 bilhões. Em outras palavras, a desvalorização equivale ao desaparecimento de uma Petrobras inteira, acrescida de aproximadamente R$ 229 bilhões. A queda foi a quinta maior registrada em uma semana desde a implantação do Plano Real, em 1994.

O tombo ficou próximo ao observado em episódios graves da história recente. Em outubro de 1997, durante a crise asiática, o Ibovespa caiu 22,17% em uma semana. Em outubro de 2008, na crise financeira internacional, a desvalorização semanal chegou a 20,01%. Em março de 2020, no início da pandemia, o índice recuou 18,88%. Desta vez, porém, há uma diferença importante: o principal fator doméstico foi a reavaliação das expectativas após o resultado das eleições presidenciais.

A reação começou logo após a confirmação da vitória de Lula sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), no segundo turno realizado em 25 de outubro. Na segunda-feira, 26, primeiro pregão após a eleição, o Ibovespa despencou e acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando as perdas atingem determinados limites. Naquele dia, o índice chegou a cair mais de 17% durante os negócios e encerrou com desvalorização de aproximadamente 13,9%. A pressão continuou nos quatro pregões seguintes e apagou grande parte da valorização acumulada no ano.

Dólar dispara e o brasileiro perde poder de compra

A crise não ficou restrita à Bolsa. O dólar comercial encerrou a sexta-feira cotado a R$ 5,446, após subir 1,09% no último pregão da semana. No acumulado dos cinco dias, a moeda americana avançou 9,15%, a maior valorização semanal desde outubro de 2008. A disparada representa forte desvalorização do real e atinge diretamente o poder de compra da população.

Na sexta-feira anterior ao segundo turno, com cotação próxima de R$ 5,00, R$ 1 mil permitiam comprar aproximadamente US$ 199. Uma semana depois, com o dólar a R$ 5,446, a mesma quantia passou a comprar cerca de US$ 184. Ou seja, em apenas cinco pregões, o poder de compra em dólares de um valor fixo em reais caiu cerca de 8,4%. A alta da moeda encarece produtos importados, componentes industriais, equipamentos eletrônicos, medicamentos, máquinas e matérias-primas cotadas em dólar, além de poder pressionar combustíveis e alimentos. O repasse, contudo, não é automático e depende de estoques, contratos e da política de preços de cada empresa.

Juros futuros disparam e fuga de capital estrangeiro

A saída de investidores estrangeiros aprofundou a queda. Segundo dados da B3, o mercado brasileiro registrou retirada líquida de aproximadamente R$ 7,6 bilhões de capital estrangeiro nos três primeiros pregões da semana. O movimento seguiu um período de valorização dos ativos nacionais, alimentado pela expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro. Durante a campanha, parte dos investidores apostava em uma mudança de orientação econômica a partir de 2027, com maior compromisso com o controle dos gastos públicos, redução do risco fiscal e possibilidade de queda dos juros.

A vitória de Lula contrariou essas expectativas e provocou uma revisão abrupta dos preços dos ativos. Fundos, bancos e investidores institucionais reduziram posições em ações e passaram a buscar proteção cambial. A taxa dos contratos de DI com vencimento em janeiro de 2031 subiu de aproximadamente 12,64% para 15,3% ao longo da semana, um salto que eleva o custo de capital esperado para os próximos anos e também o custo de financiamento projetado para empresas e para o próprio governo.

Empresas perdem mais da metade do valor em cinco dias

A desvalorização atingiu praticamente todos os segmentos, mas foi mais intensa entre empresas dependentes do mercado doméstico, sobretudo as ligadas ao crédito e ao varejo, mais sensíveis aos juros. Simpar e Movida perderam cerca de 70% na semana. O Itaú encolheu R$ 109 bilhões em valor de mercado, dos quais R$ 75,9 bilhões apenas na segunda-feira. A Vamos recuou aproximadamente 62,9%, o Magazine Luiza cerca de 58,2%, a Cosan cerca de 55,2% e a C&A 52,7%. Hapvida, Cyrela e MRV também tiveram perdas superiores a 50%.

O setor financeiro também foi atingido. A B3, administradora da própria Bolsa, registrou desvalorização superior a 43%, enquanto o BTG Pactual perdeu aproximadamente 35,6% e a Localiza caiu cerca de 46,9%. Construtoras sentem o aumento do custo dos financiamentos imobiliários, e companhias de locação de veículos e equipamentos enfrentam dívida mais cara e menores expectativas de crescimento.

O que está em jogo

Na leitura conservadora, o episódio mostra que o mercado precifica a política fiscal antes de qualquer efeito visível no bolso do cidadão. Quando o investidor espera gastos sob controle e o governo sinaliza o contrário, o prêmio de risco sobe, os juros disparam e quem paga a conta é o contribuinte, seja pelo crédito mais caro, seja pelo dólar mais alto nos produtos importados e nos combustíveis. Para quem defende o Estado enxuto, a lição é direta: sem previsibilidade fiscal, não há crescimento sustentável, e o custo recai sobre famílias, empresas e trabalhadores.

Há ainda um argumento de segurança jurídica e de confiança institucional. Investidores decidem com base em regras previsíveis e em compromissos com a responsabilidade orçamentária. Uma revisão tão abrupta das expectativas indica que o mercado enxerga risco elevado no próximo mandato. Para quem prioriza a poupança, o emprego e a propriedade, a perda de valor das empresas brasileiras, somada à corrosão do poder de compra, é um sinal de alerta que o governo eleito terá de responder com clareza e transparência.

A leitura crítica também recai sobre o próprio governo federal. Ao elevar o custo de financiamento projetado para o Estado, a desconfiança do mercado encarece a dívida pública, o que compromete recursos que poderiam ir para serviços essenciais. O episódio chega após uma campanha em que parte dos investidores buscava justamente maior compromisso com o controle dos gastos. Resta saber se o próximo mandato petista apresentará sinais concretos capazes de reverter o pessimismo registrado nos pregões desta semana.

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