
O advogado André Sica, representante do Vitória, afirmou na terça-feira (3), durante a segunda audiência pública sobre bets no STF, realizada pelo Supremo Tribunal Federal para discutir os efeitos das apostas no país, que uma eventual proibição das plataformas de apostas esportivas pode causar impactos financeiros graves ao clube baiano. Na fala, ele questionou: como o Vitória vai chegar ao final deste ano sem as bets? A pergunta foi dirigida ao debate sobre a medida, que tem como base a Medida Provisória 1.394/2026.
Segundo Sica, o Vitória tem faturamento anual de aproximadamente R$ 290 milhões, dos quais R$ 45 milhões vêm de contratos com casas de apostas e de publicidade em placas. O montante corresponde a quase 17% da receita do clube. O advogado reconheceu que o futebol existia antes da chegada das plataformas, mas argumentou que a realidade financeira atual das equipes tornou esses recursos essenciais para a manutenção das atividades.
Ao citar a situação esportiva, Sica lembrou que o time está a dois pontos da zona de rebaixamento e enfrenta desfalque de caixa. Ele destacou que o clube foi fundado em 1899, possui mais de quatro milhões de torcedores e, nas palavras dele, faz gestão responsável e paga suas contas. A disputa da Série A, segundo o advogado, ocorre a duras penas.
Na audiência, Sica citou uma declaração do presidente Lula segundo a qual o futebol sempre viveu sem as bets. O advogado concordou que o futebol existiu sem as plataformas, mas afirmou que, no caso do Vitória, a questão é específica. Ele também contrapôs a fala presidencial, que, segundo o relato, apontava que a renda das bets representava entre 5% e 7% do faturamento dos clubes, ao número apresentado pelo próprio clube, de R$ 45 milhões, equivalente a quase 17% da receita. A diferença entre os percentuais chama atenção no debate sobre o tamanho da dependência financeira dos times em relação às apostas.
A audiência foi convocada pelo ministro Luiz Fux para discutir os impactos das apostas online de quota fixa no Brasil e considerou a experiência acumulada desde a regulamentação do setor. Antes do encontro, o ministro foi alvo de críticas, sobretudo nas redes sociais, pela escolha dos participantes. Segundo essas críticas, a maioria dos representantes autorizados a falar era contrária à proibição, entre eles dirigentes de clubes de futebol e entidades ligadas às empresas de apostas.
Durante o encontro, Fux rebateu as objeções e afirmou que não procede a alegação de que somente empresas e times de futebol foram convocados. Como exemplo, citou a participação de uma entidade ligada ao setor de supermercados, após notícias sobre o aumento do consumo de alimentos depois da proibição das bets. A resposta do ministro busca demonstrar pluralidade na composição do debate, em um tema que mobiliza setores econômicos, clubes e o próprio Judiciário.
A fala do advogado repercutiu nas redes sociais, inclusive entre torcedores do próprio Vitória. Algumas publicações foram duras com a argumentação apresentada na audiência. Uma torcedora escreveu que sente uma vergonha imensa com a fala, enquanto outro usuário afirmou que as bets não mudaram a história de dificuldades do clube, que, segundo ele, já enfrentava problemas em anos anteriores. As manifestações mostram que a discussão sobre a dependência financeira dos clubes em relação às apostas também divide a própria torcida. Acompanhe mais análises no Sem Censura.
Sobre bets no STF, o tema chegou ao tribunal após a edição da Medida Provisória 1.394/2026, que trata da proibição das plataformas de apostas. As audiências públicas têm como objetivo subsidiar a decisão do tribunal sobre os efeitos do setor no país. Entre os pontos levantados até aqui estão a receita dos clubes, a situação do consumo de alimentos e a própria estrutura do mercado de apostas online.
O caso do Vitória ilustra o dilema apresentado ao Supremo: de um lado, a preocupação com os efeitos sociais e econômicos das apostas; de outro, o impacto imediato sobre o caixa de clubes que, segundo o próprio advogado, dependem desses contratos para fechar as contas. A resposta a essa pergunta ainda não foi dada pelo tribunal, e a decisão final sobre a medida segue em aberto.
