
Famílias que atravessam o oceano com pouco mais que ferramentas e sementes costumam deixar marcas profundas na paisagem. Em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, essas marcas se transformaram em parreirais, em uma festa tradicional e em um parque industrial que coloca a maior cidade da Serra Gaúcha entre as mais desenvolvidas do país. A trajetória do município mostra como o trabalho e a iniciativa privada levaram uma colônia agrícola a se tornar referência nacional.
A virada começou pela terra. A partir de 1875, colonos vindos em sua maioria do Vêneto, no norte da Itália, receberam lotes de mata fechada na serra e converteram as encostas em vinhedos. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a microrregião que leva o nome da cidade concentra cerca de 80% da área de vinhedos do Rio Grande do Sul e responde por 87% da uva colhida no estado. A tradição vitivinícola, portanto, continua sendo um dos pilares econômicos da região.
A mesma disposição para fazer tudo com as próprias mãos levou a cidade à indústria. Em 1949, oito sócios e 15 funcionários abriram uma pequena oficina de carrocerias chamada Nicola & Cia., embrião da Marcopolo. Hoje, segundo o perfil institucional da própria companhia, os veículos produzidos por ela rodam em mais de 140 países e em cinco continentes. A distância entre a pequena oficina e a operação global é uma das marcas mais expressivas da história econômica do município.
A força industrial de Caxias do Sul se espalha por fábricas de ônibus, implementos rodoviários e componentes que empregam milhares de moradores. Esse parque produtivo ajudou a sustentar o crescimento da cidade ao longo das últimas décadas e reforçou a vocação do município para a manufatura de alto volume.
A festa nasceu com uma missão prática: exibir a colheita e estimular os agricultores a trocar uvas comuns por variedades próprias para vinhos finos. A primeira edição aconteceu em 1931, idealizada por Joaquim Pedro Lisboa. Pesquisa publicada pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) aponta a Festa Nacional da Uva como um dos eventos mais antigos do Brasil. Hoje ela acontece a cada dois anos, entre fevereiro e março, período em que os parreirais estão carregados.
Quatro décadas após a estreia, a celebração ganhou também cores em sentido literal. Em 19 de fevereiro de 1972, a cobertura do evento foi a primeira transmissão em cores da televisão brasileira, com narração de Cid Moreira. O episódio entrou para a história da televisão do país e projetou a festa para além da serra.
Em 2022, um estudo da consultoria Austin Rating, realizado com a Editora Três, colocou o município em 18º lugar entre os 5.565 municípios do país e em primeiro no estado. O levantamento, divulgado pela Prefeitura de Caxias do Sul, cruzou 281 indicadores sociais, econômicos, fiscais e digitais para medir a igualdade de oportunidades entre os moradores. Os números reforçam a posição da cidade entre as mais bem colocadas do Brasil.
No mesmo ano, o ranking da Urban Systems elegeu o município como o melhor do Brasil para fazer negócios na indústria, entre as cidades com mais de 100 mil habitantes. O salto chamou atenção: no ano anterior, a cidade ocupava a 67ª posição. A mudança de patamar em um intervalo curto de tempo é apontada como um sinal de dinamismo do ambiente de negócios local.
Localizada a 817 metros de altitude, Caxias do Sul tem verões amenos para os padrões brasileiros, invernos de noites frias e chuva bem distribuída em todos os meses. Esse ritmo acompanha os parreirais: a colheita se concentra no verão, época da Festa da Uva, e o frio do inverno marca o período de repouso das videiras. O município é hoje a segunda cidade mais populosa do Rio Grande do Sul, resultado de um percurso que começou com casas de madeira em uma vila de colonos.
Boa parte da história da colonização pode ser vista sem sair do município, entre o centro urbano e as estradas do interior. Réplicas, museus e vinícolas contam a saga das famílias pioneiras, e quem dedica alguns dias à cidade encontra no roteiro um retrato direto de como a imigração italiana moldou a identidade local.
A persistência que abriu clareiras para os primeiros parreirais é a mesma que ergueu fábricas capazes de disputar mercados em outros continentes. Em Caxias do Sul, a uva continua marcando o calendário, enquanto ônibus fabricados na serra circulam por estradas que os colonos do século XIX jamais imaginaram. A herança deixada por aquelas famílias permanece como a prova de que um lugar distante, com trabalho e paciência, pode alcançar o mundo inteiro.
