
Pela primeira vez, participantes do Enem com histórico de crises de ansiedade ou Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) poderão contar com acompanhante ou cão de apoio emocional durante as provas. A novidade faz parte do edital desta edição, que também amplia as regras de acessibilidade do exame aplicado neste domingo (8). Para ter direito ao recurso, o candidato precisa ter pedido o atendimento especializado no ato da inscrição e obtido aprovação do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão responsável pela aplicação da prova.
De acordo com o edital, a medida se aplica também a outros casos de alterações emocionais. O acompanhante deverá permanecer em uma sala reservada, monitorada por fiscais, para os casos em que o participante precise de apoio ou de estabilização. A regra vale apenas para quem apresentar laudo adequado e teve a solicitação aprovada previamente pelo Inep.
Segundo o ministro da Educação, Leonardo Barchin, a possibilidade de presença de um acompanhante familiar tem grande relevância. Em entrevista, ele afirmou: “Se tiver o laudo adequado e a solicitação aprovada, se esse candidato, por exemplo, precisar ir ao banheiro, se houver outra necessidade, terá um acompanhante familiar. Este apoio emocional é muito importante.” O ministro também declarou que “o Enem deve ser acessível e cada vez mais inclusivo” e que, todos os anos, o exame evolui nessa questão.
A aplicação deste domingo tem 138.329 solicitações de atendimento especializado confirmadas pelo Inep. Entre as condições que mais motivaram os pedidos estão o déficit de atenção, com 51.724 candidatos (37,39%), e o Transtorno do Espectro Autista, com 34.723 (25,1%). Também aparecem a baixa visão, com 9.792 candidatos (7,04%), e a deficiência intelectual, com 8.922 (6,45%).
Entre os recursos de acessibilidade pedidos na inscrição, o tempo adicional lidera, com 77.956 solicitações (34,47%). Em seguida vêm a correção diferenciada, com 42.379 (18,74%), e o auxílio para leitura, com 28.042 (12,40%). Os dados são do Painel Enem 2026, que também traz informações sobre salas acessíveis, prova em braile, tradutor-intérprete de Libras e uso de aparelho auditivo ou implante coclear.
Uma das solicitantes é Maria Clara Gonçalves, de 18 anos, moradora de Cotia (SP). A estudante do 3º ano do ensino médio tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), diagnosticado entre os 14 e 16 anos. Ela pretende disputar uma vaga em medicina e afirmou que, para pessoas como ela, o ideal são salas reduzidas, com menos ruído e movimentação. “Gosto de ter salas com menos pessoas. Pessoas que também tem TDAH vão entender.”
Isabella Magalhães, de 25 anos, fez o Enem em 2017 com atendimento especializado e tem diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista, nível 2. Ela contou que, aos 16 anos, sua maior dificuldade não foi o conteúdo, mas a extensão da prova e o ambiente com muitas pessoas, ruídos e movimentação. Para ela, é importante que o governo considere esse público ao adaptar o exame.
A psicopedagoga Giselle de Oliveira Araújo, especialista em educação especial e coordenadora da clínica Follow Kids, no Rio de Janeiro, afirmou que estudantes neurodivergentes não precisam funcionar como os demais para demonstrar o que sabem. Segundo ela, é preciso conhecer as próprias necessidades e usar estratégias que realmente ajudem. Ela recomenda apoiar os pés no chão, sentir o contato com a cadeira, relaxar os ombros, alongar as mãos, ajustar a postura e respirar lentamente.
Giselle explicou que não há intervalo fixo ideal para pausas e que o momento de parar deve ser guiado por sinais de sobrecarga, como reler a mesma frase várias vezes ou perder a organização do raciocínio. Ela orienta que essas técnicas sejam testadas antes da prova, em simulados, pois usar algo novo no dia do exame pode provocar desconforto. Os movimentos, segundo a especialista, devem ser discretos e respeitar as regras da aplicação.
Embora o governo apresente a medida como avanço, o acesso ao acompanhante depende de duas etapas: laudo adequado e solicitação feita no momento da inscrição, com aprovação posterior do Inep. Na prática, quem não formalizou o pedido dentro desse processo não poderá usufruir do recurso nesta edição. A exigência de comprovação e de aprovação prévia define, portanto, quem entra no programa e quem fica de fora.
A inclusão da fibromialgia entre as condições que motivam o atendimento especializado é outra novidade deste ano. Com 138.329 pedidos confirmados, a edição mostra o volume de candidatos que dependem de adaptações, o que torna relevante acompanhar como a estrutura de salas reservadas e de fiscalização será aplicada em todo o país.
