
O banqueiro Daniel Vorcaro incluiu a revista Oeste na lista de veículos de imprensa que tentou censurar por publicarem reportagens sobre o escândalo envolvendo o Banco Master. As mensagens que registram a censura à revista Oeste estão disponíveis na plataforma MasterWhats, que organiza conversas atribuídas ao banqueiro e permite consultá-las por data e interlocutor. O material foi organizado a partir de documentos ligados às investigações da Polícia Federal (PF).
Em 30 de abril de 2025, Vorcaro discutiu com Ana Matos, diretora de Comunicação e Marketing do banco, o envio de uma notificação extrajudicial contra a revista. Insatisfeito com o documento preparado pela equipe jurídica, o então controlador da instituição cobrou uma abordagem mais dura e reclamou: “Estamos sendo humilhados e desrespeitados”. A troca de mensagens mostra que Ana tratava diretamente com ele de notificações, estratégias de comunicação e iniciativas para barrar reportagens, e que ele acompanhava essas ações e opinava sobre o conteúdo elaborado pelos advogados.
Vinte e seis dias antes da discussão, a revista havia publicado a reportagem especial “Ascensão e queda do Banco Master”, assinada pelo repórter Carlo Cauti na Edição 263. O texto examinou o crescimento da instituição, os riscos de suas operações financeiras, os investimentos em precatórios e a negociação frustrada com o Banco de Brasília (BRB). A publicação também tratou das relações de Vorcaro com integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva e do Supremo Tribunal Federal (STF), um ponto que expõe a proximidade entre o setor financeiro e as esferas de poder em Brasília.
Na mesma conversa de 30 de abril de 2025, Ana Matos citou a colunista Malu Gaspar. Ao discutir as ações judiciais que o banco adotaria contra a imprensa, ela afirmou que a jornalista havia ultrapassado todos os limites e disse o mesmo em relação à revista Oeste. A fala mostra que o departamento de comunicação da instituição tratava a cobertura jornalística sobre o caso como alvo de medidas jurídicas, e não como matéria a ser respondida no campo da informação.
A irritação de Vorcaro com a revista não surgiu apenas em 2025. Em 14 de julho de 2024, cerca de nove meses antes da discussão sobre as notificações, ele já criticava a cobertura da publicação em mensagens enviadas a Flávio Carneiro, responsável pela assessoria de imagem do banco. Na ocasião, o banqueiro perguntou quem estava por trás da revista. Carneiro respondeu que a equipe reunia profissionais com passagem por outros veículos de imprensa e classificou a publicação como “1000% Bolsonaro”.
O acervo reúne mais de 66 mil mensagens, distribuídas em 24 conversas, entre dezembro de 2023 e novembro de 2025. Chama atenção que a estratégia de contenção não tenha se limitado a respostas públicas, mas tenha incluído a preparação de notificações extrajudiciais e a discussão sobre o tom das medidas contra jornalistas. Para o público que acompanha temas de liberdade de imprensa, o episódio sobre a censura à revista Oeste levanta questões sobre até onde uma instituição financeira de grande porte, com relações no governo federal e no STF, tentou influenciar a cobertura de um caso que envolve dinheiro público e privado. O conteúdo das conversas integra as investigações da Polícia Federal e ainda será analisado no âmbito dessas apurações. Mais informações sobre o caso estão no portal Semcensura.
